Sócrates e Platão: duas mensagens de (ante)ontem para a (auto)educação de amanhã

Muito já se escreveu sobre a presença da educação no cerne da reflexão filosófica da Grécia. Sabe-se muito, por exemplo, sobre as teses socrática (da virtude como ciência ensinável), platônica (do aprendizado como reminiscência) e aristotélica (da função da mimesis, ou imitação, no processo do aprender). 

Muito se sabe, mas pouco se percebe. 

Para além das contribuições diretas destes luminares, há uma série de inflexões transversais, oblíquas, também de suas lavras, capazes de lançar novas luzes sobre o fenômeno pedagógico, e que precisam ser tematizadas ao lado das teses principais, para amplificar-lhes o sentido e o alcance na práxis do ensinar e aprender.

Sócrates, decerto, fora um grande educador. Sua capacidade de aglutinar discípulos e transformar vidas é conhecida em pormenor. 

Poucos homens lograriam reter, num mesmo círculo, militares como Xenofonte e políticos como Alcibíades.

Pouquíssimos conseguiriam semear princípios para frutos tão belos quanto díspares, como o jardim de Epicuro, o pórtico de Zenão, o barril de Diógenes, a cátedra de Pirro, as escolas de Cirene e de Mégara. 

E talvez apenas ele conseguisse levar o jovem Arístocles, um ex-atleta vigoroso, poeta e tragediógrafo de alta verve a abandonar os belos feitos e as belas palavras, para tornar-se o entusiasta da luz do “Belo em si” e o sol meridiano da aventura pensante do Ocidente.

    

Louva-se em Sócrates o que ele disse sobre o educar, sobre a necessidade da catarse das falsas opiniões preconcebidas (ironia), do reconhecimento da própria ignorância como grau-zero do conhecimento, da epigênesis do saber novo e cristalino através da práxis do diálogo (maiêutica), da essencialidade de buscar a definição (horismos) do que se quer conhecer, da necessidade de converter a penumbra da opinião (doxa) na claridade da ciência (episteme), a essencialidade do conhecer a ética, a necessidade de converter o hábito (hexis) em virtude (arete).



Esquece-se (ou menospreza-se), porém, o luminoso papel da aletheia (desvelamento) da transcendência, na revelação da sua ‘missão’ pela Pítia; relega-se isto como fato de menor importância, como crendice apenas influente, mas não crucial em sua vida. 

Ignora-se o papel de seu daimon na sua práxis existencial, alguns considerando-o como mero artifício retórico, outros classificando suas irrupções e o seu pathos à luz da patogenia cataléptica. 

Despreza-se, por fim, o mais fundamental: o papel do princípio délfico (gnothi seauton, conhece-te a ti mesmo) em sua doutrina. 

Em suma: elogia-se o Sócrates ‘doutrinador’, ‘debatedor’, ‘professor’, mas esquece-se que a sua pedagogia é sobretudo uma catálise da auto-educação. 

Pensa-se no papel revolucionário da dialética socrática na agitação da mudança política externa, mas olvida-se o seu papel evolucionário na mudança psíquica interna.


Platão também fora um mestre excepcional. 

A capacidade de receber o melhor do legado Jônico (Anaximandro e Heráclito), Itálico (Pitágoras) e Eleático (Parmênides), acolhendo o que avaliou como melhor na Tradição. 

A guarda e complementação do ensino Socrático, encarando o legado recebido como algo passível de aprimoramento. 

A abertura ao ensinamento de outras culturas, mormente a egípcia, indicando um pluralismo necessário, inclusive, para enraizar nossos saberes e nosso particular acesso ao mundo. 

O inteligente manejo da oralidade e da escritura, e, nesta, da prosa e da poesia, unindo todas as formas de comunicação num grande processo dialógico. 

A integração dos diversos saberes, permitindo uma visão de mundo cada vez menos unilateral.

A fundação da primeira instituição acadêmica ocidental, apontando para a utilidade e necessidade da estruturação institucional do processo educativo. Os exemplos aqui se ajuntariam indefinidamente.


Reconhece-se em Platão o belíssimo projeto pedagógico a abranger toda a Polis: a busca por uma educação da Comunidade como um todo, dentro, obviamente, daquilo que ele era capaz de compreender como o melhor para esta totalidade.

Elogia-se, também, a problematização de todos os aspectos da cultura – ciência, arte, religião, direito, política, etc, em confronto com a educação (Paideia), mostrando que cada qual requer seu próprio modo de ensinar e tem suas exigências específicas. 

Nota-se, ainda, a ‘descoberta’ do supra-sensível (topos ouranos), como possível fundamento último do conhecer e do aprender; abóbada metafísica que, mesmo numa visão de mundo materialista, pode sobrexistir e ser útil diretriz cultural, no sentido de camada de ideais e valores a serem partilhados pela comunidade numa esfera secular.  

Outro ponto importante é a busca, no conhecimento prévio do indivíduo, das bases para a aquisição de novos saberes, mostrando que o educar não se restringe a um internalizar passivo de informações, mas numa elaboração de saberes novos a partir dos já possuídos.  

Destaca-se, ainda, a ânsia por paradigmas imutáveis de ação – as Idéias; tais paradigmas constituem palavras fundamentais (Justiça, Liberdade, Bem, Paz), que permitem novas formas históricas de realização, não sendo incompatíveis com o devir das civilizações no espaço geográfico e no tempo histórico.  

Enfim, registra-se em Platão o valor decisivo da memória, da reflexão e da imaginação criadora na episteme, apresentando-se como antiquíssima e já fecunda alternativa ao logicismo exacerbado e ao empirismo raso de certos aspectos da práxis científica contemporânea.


Porém, talvez por razões análogas ao caso Socrático, negligencia-se os princípios para uma pedagogia da auto-educação em Platão. 

Assim, e para ficar apenas no caso emblemático de ‘A República’, multiplicam-se as exegeses radiosas da ‘alegoria da caverna’, aludindo-se ao papel do filósofo na educação da Polis, a resistência dos concidadãos, a dificuldade em desbastar a treva dos erros seculares, etc. 

Poucos, porém, observam que o objetivo do diálogo não é, inicialmente, constituir uma ‘Polis justa’, mas o de indicar o caminho (hodos, de onde vem ‘método’) para uma alma tornar-se (auto-educação!) justa.


Note-se que o divino poeta ali estabelece os três níveis de Paidéia, na famosa doutrina das três ‘psyche’ ou almas, referendo-se à tridimensionalidade da existência humana - racional, emocional e sensorial -, e ensinando que cada uma delas é passível de chegar a uma excelência (Arete): phronesis (prudência, virtude da razão), andreia (coragem, excelência da emoção), e sophrosine (moderação, controle das sensações). 

Ora, é o equilibrio entre as três dimensões do ser que leva à síntese destas virtudes numa excelência máxima: a Dike ou Justiça. É justamente para ilustrar esta auto-formação, que Platão recorre à alegoria da Constituição de uma Polis, exemplificando em cada uma das classes da cidade as dimensões do ser humano. Tanto é assim, que o diálogo não se chama koinoia, termo equivalente ao latino “república”, mas Politeia, melhor traduzível por “Constituição”: é da auto-constituição de uma alma que ali se fala, ainda que a bela metáfora da polis ideal seja bastante fecunda no campo da política.


As proposições aqui apresentadas não pretendem esgotar o tema. 

Tampouco se destinam a reinventar a roda, ou a escrutar um código secreto ou mysterium inefabile no pensamento daqueles velhos mestres. 

Destinam-se, tão-somente, a instigar à busca por novas vias hermenêuticas para além das interpretações estratificadas da tradição historiográfica, arraigada em seus velhos hábitos de pensar. 

Certamente, a adequada tematização do problema requereria uma inflexão muito mais acurada nos testemonia socratii (Platão, Xenofonte, Aristófanes, Diógenes Laércio, etc), bem como nas demais obras de Platão (e em suas doutrinas não-escritas). 

Mas a simples indicação da possibilidade já é modesta contribuição, capaz de acender o sinal de alerta para novas possibilidades, bem como acendrar o ânimo de explorá-las. 

Ao que tudo indica, a grande tarefa da civilização, no milênio infante, é amplificar os ensejos de auto-educação do indivíduo-em-comunidade, como a Paidéia da comunidade como um todo já fora o objetivo de civilizações de antanho. 

E, para isso, a senda já foi traçada por aqueles (e por outros) sábios de outrora: é preciso ‘aprender a aprender’.


 

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