A Crítica da Razão Pura: da Ontologia à Gnoseologia e à Epistemologia

           
         
            A Crítica da Razão Pura, de Kant, não é propriamente um tratado de ontologia. Sua preocupação é epistemológica: justificar filosoficamente como são possíveis os “juízos sintéticos a priori[1], que para ele perfazem o conteúdo de verdade das ciências estabelecidas de seu tempo (a Matemática[2] e a Física[3]), bem como daquela que, para ele, estaria acabada desde Aristóteles (a Lógica)[4]. E, com base na resposta, investigar se são possíveis tais juízos na Metafísica[5], o que equivale a responder se a Metafísica é possível como ciência.

            No entanto, ao empreender a sua tarefa, Kant elabora uma ontologia dualista, centrada na parêmia fenômeno/númeno, da qual partirá sua faina epistemológica em seus diversos níveis (sensível e inteligível)[6], e, sobretudo, uma ontologia das duas espécies de conhecimento (inteligível e sensível), objetos do Entendimento e da Sensibilidade, respectivamente. 

             Assim, embora constitua uma obra essencialmente epistemológica, a Crítica da Razão Pura não se mostrará jamais alheia a uma consideração de matiz ontológico, destinada a escavar os pressupostos fundamentais da visão kantiana acerca do real, a partir da qual é que emergirá sua compreensão a respeito do conhecimento - suas possibilidades, limites e alcance. Em suma: é da ontologia que Kant partirá para a gnoseologia (teoria do conhecimento) e, especialmente nesta, para a Epistemologia (Teoria da Ciência)




[1] Kant o nomeia “problema geral da Razão Pura” (KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. 5ª Ed. Trad. Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Mourão. Lisboa: Calouste, 2001, p. 75). As citações da Crítica de ora em diante receberão a abreviação Crp e o número da página.
[2] Que, para Kant, compreende a Aritmética e a Geometria, fundadas aprioristicamente nas Formas a priori da Sensibilidade, respectivamente, tempo e espaço, objetos da Estética Transcendental. (CRP, pp. 87 et SS).
[3] Assunto da Analítica Transcendental, mais precisamente, da Analítica dos Princípios, que cuida dos “princípios sintéticos do entendimento puro”, relativos os objetos da experiência sensível, isto é, daquilo que Kant compreende como fenômenos físicos. (CRP, pp. 201 et SS).
[4] Tema da Analítica dos Conceitos, na Lógica Transcendental. (CRP, pp. 125 et ss).
[5] Tarefa a ser executada pela Dialética Transcendental (CRP, pp. 321 et SS).
[6] Ápice da Analítica dos Princípios, cujo capítulo III se intitula, justamente, “princípio da distinção de todos os objetos em fenômenos e númenos” (CRP, pp. 283 et SS).te.


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