Conceitos Fundamentais da Metafísica - 1ª Parte. 9. O tédio como Tonalidade Afetiva do Ser-aí europeu em 1929

 O parágrafo 18 de Conceitos Fundamentais da Metafísica trata do asseguramento das duas condições que Heidegger considera fundamentais para o despertar da Tonalidade Afetiva fundamental: a identificação da conjuntura vigente, e a identificação de qual é a TA fundamental que nos atravessa e domina, pois é ela que deve ser despertada.

Para ratificar a necessidade disto, Heidegger graceja dizendo que o despertar de uma TA não é algo que se possa lograr assim, sem mais, como o colher de uma flor.

Para fazê-lo então, ele procura fazer, na seção (a) um diagnóstico da conjuntura, de modo a cumprir a primeira tarefa. Nisto, ele evoca quatro interpretações fundamentais da época, todas reuníveis sob um denominador comum (a conjuntura), apesar de suas diferenças. Este denominador seria “a contradição entre vida (alma) e espírito, e ocorreria em todos os quadrantes da civilização, dos quais ele destaca:

Oswald Spengler – o declínio do Espírito junto à Vida, proposto por ele em sua obra fundamental “O Declínio do Ocidente”, que mostra a morte da civilização (Espírito) européia.

Ludwig Klages – enxerga a mesma sobrepujança da Vida em face do Espírito, mas não a vê como uma decadência deste, mas como uma luta da Vida contra o Espírito, da Natureza contra a Cultura, em sua obra “O Espírito enquanto adversário da Alma”.

Max Scheler - observa o mesmo processo ascensional da vida e descensional do Espírito, mas não como declínio ou luta, mas como aproximação a um estado de equilíbrio. Obra: o Homem na Era do equilíbrio.

Leopold Ziegler – comparte a visão dos anteriores, mas propõe o advento de uma nova Idade Média, não no sentido de regresso, mas de mediação, de suspensão temporária da contradição entre Vida e Espírito. Sua obra: O Espírito Europeu.

Apresentado este panorama, Heidegger sugere, na seção (b) deste parágrafo, que o tema comum da contradição entre Vida e Espírito provém de Nietzsche, e sua oposição do Dionisíaco ao Apolíneo.

Finalmente, na seção final (c), Heidegger conclui que o recurso à filosofia da cultura foi inútil, vez que nenhuma das interpretações nos comove ou detém. Ela apresenta a conjuntura, mas não toca a Tonalidade Afetiva fundamental. Ela não nos afina. E o que é pior: nos desconecta, na medida em que nos atribui um papel na História do Mundo.

Obviamente, recorde-se que Heidegger fala à Europa do fim da década de XX, mas a tese fundamental subsiste: a filosofia da cultura, a análise comparativa do ser-aí lançado no mundo em culturas diversas, em vez que afinar-nos, nos desafina, se não é precedida por uma analítica própria do ser-aí em si mesmo. Pelo contrário, a compreensão superficial das outras culturas tende a obstruir o acesso a uma auto-compreensão originária do Dasein em sua específica Tradição.


Desenraizamento, fuga, equívoco, aparência, ausência de direcionamento. Indiferença bocejante diante de todas as coisas. E eis que então se insinua o tédio, como “nuvem silenciosa sobre os abismos do ser-aí”. É a ele que Heidegger procurará investigar, para saber se o há de despertar e interpelar, e sobre como o fará, se for o caso.  

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